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terça-feira, 21 de junho de 2016

Quando eu decidi parar de ver sitcoms e afins: o fim de How I Met Your Mother...

Spoilers de How I Met Your Mother...


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Desde que me entendo por gente, eu gosto de histórias. Histórias contadas, histórias escritas, tragédias, romances, intrigas...

Era uma criança que gostava de conversar com os idosos. Podia passar o fim de tarde falando com a Dona Tita, ou com a vovó Silvia, vizinhas lá de casa. Elas falavam de como a vida funcionava, e de como era o tempo antes de eu nascer. 

Foi com a vovó Silvia que eu aprendi que uma mentirinha podia ser contada vez ou outra, se a intenção era proteger os outros. Hoje, questiono essa sabedoria, não porque discordo dela, mas porque as pessoas caem fácil na tentação de contar mentiras para se protegerem ou se beneficiarem, a despeito dos outros. 

Sentava quieto do lados dos adultos, não por ser comportado, mas porque era mais divertido ouvi-los conversando entre si do que jogar bola. Falavam da família, comentavam sobre carros, obras, brigas, combinavam viagens...

Aprendi a ler com Calvin & Haroldo; ganhava gibis da turma da Mônica. Aos domingos, avançava pelo jornal, além do globinho, sempre que encontrava uma foto que me chamava atenção. Depois, passaram a ser as manchetes. Alguns poucos anos depois, e eu lia o jornal quase todo, menos a parte de esportes e economia.

Mas não havia a gana de me informar, como acontece hoje.

Me lembro de querer ler um livro da estante da minha mãe ainda na primeira série, e eu ter que perguntar para a tia Marília se eu podia. Minha mãe, com um receio infundado sobre o que eu deveria ter acesso (como se eu não soubesse da caixa de revistas velhas da 'sexy' do meu pai - ele era muito pão duro pra comprar da playboy - debaixo da escada), e minha professora respondendo pra deixar eu ler o que eu quisesse. Obrigado, tia Marília!

Virava a madrugada vendo 'o homem da máfia', ou qualquer coisa que a globo, já naquela época, usava pra tapar buracos. Virei fã de 'profissão perigo', e meu herói era o MacGyver. Isso até comprar minha primeira revista de heróis, Vingadores vs. Esquadrão Supremo. Depois, foi a revista do Homem Aranha vs. Duende Macabro.

Passei a infância criando aventuras para meus bonecos dos 'comandos em ação', super heróis e robôs. Mais tarde, 

Anos e anos, e só depois de ver o fim de 'how I met your mother' que me dei conta do que me atraía, do que me importava pra mim quando parava pra conhecer "outras vidas". 
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Era agradável tomar café da manhã ou fazer um lanche de tarde ouvindo as piadas do Chandler com o Joey. Mas 'friends' nunca me chamou muita atenção. Até me sentia um pouco deslocado, porque tanta gente gostava da série... 

Foi diferente com 'h I m y m'. 

Eu me importava com a solidão patente do Barney, apesar dele se apoiar bem na imagem que construiu para si mesmo, como aprendemos ao longo da série. De ovelha à lobo, apenas para garantir sua vingança, vivendo em um mundo ideal, mesmo que a realidade não deixasse de bater à porta vez ou outra. Seu pseudo egoísmo e insensibilidade eram apenas uma carcaça que protegia um coração mole e frágil, que tinha nos amigos seus referencial.

Ria e me comovia com o romance de Marshall e Lilly, e os passos que deram para deixarem a irresponsabilidade da juventude com o pequeno Marvin. Suas diferenças eram superadas pelo amor que sentiam um pelo outro.

Durante muito tempo, pudemos perceber essas nuances. Nada era gratuito na série. Havia algo a ser contado, um sentido a ser revelado. Seria o amor uma história de destino, ou apenas uma coincidência da vida? O protagonista - recuso pronunciar o seu nome neste texto - deveria revelar esta "verdade" para nós, uma promessa feita desde o primeiro episódio. 

Ah, Tracy... mais conhecida como Mãe. 

Como é possível se apaixonar por uma personagem sem face por oito anos? Quem seria ela? Quem poderia encarnar a mulher ideal? Como, em tão poucos episódios, seríamos convencidos de que aquela pequena garota seria maior que Robin? Mas foi o que aconteceu. 

Na última temporada, pequenos encontros com ela, e apenas um episódio onde resumem seu percurso, e nada mais foi necessário.

O sentimento de derrota persistente do protagonista, alternando com pequenos flashes de sua felicidade futura, equilibraram-se com a importância do casamento de Robin e Barney. Ambos cínicos ao amor romântico, haviam encontrado um no outro a possibilidade de serem felizes, em uma história ainda mais bela do que a de Marshall e Lilly.

Qual história de amor é mais bonita? A que é definida pelo destino desde seu primeiro momento, ou a que deve ser conquistada através da superação das próprias fraquezas?
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História não tem a ver obrigatoriamente com evolução, ainda que se confunda com isso. É continuidade. É o que foi antes, o que é agora, e o que vem a seguir. Não precisa ter lição, nem aprendizado. Basta apenas mostrar algo que seja diferente do seu ponto de partida. 

Sem isso, uma pretensa narrativa é mero artifício de sensações. Como os sustos de filmes de terror, ou uma dose de tequila.

Assim, 'h I m y m' em seu último episódio, foi menor. Negou ao casal mais incrível da série seu happy end, matou uma das personagens mais belamente criadas numa sitcom apenas para voltar ao seu ponto inicial, sem qualquer apreço por quem aqueles personagens foram - fora o protagonista. Este se manteve estático, obsessivo, imaturo, entediante.

E assim, garantiram a piada final. E eu não ri.
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Não sei o que é 'modern family'. Abandonei a ideia de ver 'community' quando tornou-se trabalhoso ver os episódios. Jamais vi graça em 'the office' ou similares. Ainda que o gênero sitcom tenha mudado, não quero mais acompanhar algo que, pela estrutura, promete uma continuidade, mas que na verdade só pode entregar risadas isoladas. 

As reprises de Friends servem bem a este propósito. Ou pequenos virais nas redes sociais. 

Assim sendo, prefiro cometer equívocos do que passar pelo risco. Histórias mal contadas ainda serão melhores que história alguma. Isso pra quem gosta de histórias. 

Até Breve!
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update: este texto estava guardado, à espera de um amigo que acompanha meus textos terminar a série. Ainda assim, ele não só continua valendo, como está mais do que atual. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Sobre o Impeachment (ou não): Cazuza estava certo...

Hoje acordei estranho.

Tive um sonho inconfessável (não, nada erótico) com uma pessoa que, de vez em quando, ronda meus pensamentos. É engraçado, porque no sonho ela me culpava por ter provocado uma situação que eu não tinha o menor envolvimento, algo a respeito de um desentendimento com sua mãe. 

Antes que eu pudesse interpelá-la sobre a acusação, outras pessoas surgiam e não conseguíamos terminar a conversa. Estávamos na fila do DETRAN.

Pergunto-me se ela está infeliz hoje, ou se ela se enquadra naquele grupo que, feliz com o resultado do impeachment, está comemorando "na mesa de bar" ao lado dos Bolsonaros, Felicianos, Cunhas e Malafaias 'da vida' com certo constrangimento, ou até mesmo pesar.

O inimigo do meu inimigo é meu amigo? 

Se for rápido demais na resposta, você pode cometer um crime contra si mesmo que sua consciência jamais irá superar. Um dilema inconfessável!
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Dias atrás, tive a oportunidade de expor o meu ponto de vista a grandes amigos, que têm uma visão de mundo muito distinta da minha. Nada demais, eles apenas tiveram outra experiência de vida e, ainda que concordemos em muita coisa, a perspectiva deles se origina em outros lugares.

Tem uma alegoria que gosto muito: três amigos, um dentista, um psicólogo e um assistente social estão andando no centro do Rio e passam por um mendigo, sorrindo e brincando com as pessoas, sem demonstrar a "loucura" que pejorativamente associam a pessoas sorridentes que estão em estado de miséria.

Os três estão vendo o mesmo mendigo, mas o que observam é completamente diferente. Pelo menos no primeiro instante. 

O dentista repara a necessidade de tratamento dele. Vários dentes podres, alguns ausentes, marcando um ar melancólico àquele sorriso exposto. 

O psicólogo está se perguntando se aquele felicidade é legítima ou se advém de uma reação ao desespero de viver numa situação tão calamitosa, antes de se censurar por fazer suposições sem conhecer o discurso do outro, e não esperar que ele ativamente demonstre necessidade de ajuda.

O assistente social está pensando qual o abrigo mais próximo para que aquele homem tome um abanho, receba roupas novas, se alimente e possa, talvez, ser amparado em suas necessidades mais básicas.

Era o mesmo mendigo. Ou não? Quantos mendigos haviam nesses olhares? Quantos homens havia nessa história?
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Quando páro pra pensar na minha vida, não posso negar que penso em mim mesmo dentro de uma lógica meritocrática. Reconheço enormes dificuldades que tive para seguir adiante. Se consegui entrar nas universidades que quis, foi apenas e tão somente por mérito meu. E não, as condições não eram favoráveis na época. E esta não é uma afirmação alienada.

Quando o Estado finalmente se fez presente, ele cobrou um preço alto pelo seu investimento, sem espaço de negociação comigo ou com quem administrava os seus recursos. 

Demorei muito mais tempo para me formar. A lógica pedagógica me apresentava um curso integral, no meu ponto de vista, uma das coisas que mais afastam os estudantes de baixa renda das universidades públicas. 

E só me mantive focado, dentro do possível, graças aos programas de bolsas que passaram a existir. 

Mas o preço que tive que pagar foi deixar que as exigências do Estado (prazos, regras, relatórios, ameaças institucionais, carga horária adicional para "devolver o investimento") pautassem as minhas relações pessoais e envenenassem o convívio com as pessoas. "Pai" exigente, esse Estado! E não, não vou elaborar mais que isso. Este é um blog de ideias, e não diário pessoal.

Como "morder a mão que te alimenta"

Outro dilema inconfessável!
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Ainda, reconheço a importância da liberdade de expressão e acredito que a a esfera individual tem que ser preservada em detrimento de valores coletivos. Justamente por isso, penso que a liberdade de expressão tem seu limite quando posso ferir a esfera individual de outrem. 

Ter o Individualismo (notaram a letra maiúscula?) como base de valores não é algo que possa se evitar muito na sociedade em que vivemos, e por isso é necessário distingui-lo do individualismo, qualidade visto como pejorativo em qualquer reunião familiar quando você não sai do quarto, quando as amizades só têm valor na hora de pegar aquela grana emprestada, ou quando não querer discutir a relação passa por não se preocupar com os desejos e vontades do outro.

Há de se pensar em como o Individualismo de Locke, Bentham e Stuart Mill (não parece o nome do ratinho do filme?) estão presentes na sociedade contemporânea, e como podemos pensar uma versão de "Individualismo" a partir de Sartre.

"Quando afirmamos que o homem se escolhe a si mesmo, entendemos que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se, ele escolhe todos os homens (...) Nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, pois ela engaja a humanidade inteira."

Sartre em 'O existencialismo é um humanismo'.
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Hoje, como sempre, somos engajados numa escolha que não é escolha, somos convidados a tomar um lado quando não queremos fazer parte do debate, e somos levados a pensar que nós temos peso, quando somos insignificantes.

Por isso, a primeira pessoa a que devemos nos reportar é a nós mesmos. Lidar com a nossa angústia, definirmos quem nos tornamos a partir de nossas escolhas e espelhar isso no mundo.

Hoje, prefiro não resolver a dissonância que emerge ao apoiar o Impeachment e estar ao lado de Bolsonaro, Cunha e cia. simplesmente porque esta não é uma dissonância minha. 

Ser contra ou a favor do impeachment não torna a escolha minha. Esta escolha foi a de 513 homens e mulheres ontem, no Congresso.

Minha escolha tem a ver com resposta que dou à angústia de ver o que foram as justificativas dos votos, de pensar no debate enquanto acontecimento jurídico/político e o que isso diz desta sociedade porque, ao responder isso, eu estou me definindo enquanto ser humano, estou me reconstruindo, estou dizendo pra mim que eu sou e quem eu quero ser.
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Já dizia Cazuza,



Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Ah! Eu nem acredito

Que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do "Grand Monde"

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver

O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs
Não tem nenhum rock 'n' roll
Eu vou pagar
A conta do analista
Pra nunca mais
Ter que saber
Quem eu sou
Ah! Saber quem eu sou

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro!

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Pra viver

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver



Até Breve!

segunda-feira, 28 de março de 2016

Dissídios políticos e impeachments pessoais

Acho que me devia este momento, e este texto. 

É ruim estar vivendo neste ambiente político, no país e no mundo. Mas também existe um certo conforto em não me sentir mais um filho de uma "geração fraca, sem crises reais, sem saber o que é sofrer de verdade", e não precisar mais justificar os males da minha vida por explicações meramente subjetivas, fraquezas pessoais, ou falhas de caráter.

Hoje, posso dizer que os políticos estão fodendo a minha vida. Hoje, posso dizer que a Dilma tirou meu emprego, ferrou com minha viagem para Nova Iorque, ou que o Cunha não merece o que tem porque ele roubou, enquanto eu fiz tudo certo e estou na pindaíba. 

Não é assim que as pessoas estão pensando hoje em dia?

E ainda que tenha citado dois expoentes da crise atual, poderia fazer isso com qualquer outro. Basta detalhar o exemplo. Poderia falar do Trump, Clinton, Castro ou Morales. Poderia citar o ISIS. Poderia falar do prefeito e dos vereadores locais.

E é tudo verdade. Eles são culpados, ou têm responsabilidade, nas suas respectivas crises. Mas ser verdade não torna as coisas mais simples.
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Fico muito feliz pela decisão, décadas atrás (caramba! cheguei no ponto de poder usar décadas, no plural, sem ser hiperbólico), de não querer ter filhos. Hoje, compreendo que houve um impedimento, para além do meus desejos - ou por conta deles - desta vontade não ter sido alimentada ao longo dos anos.

A despeito disso, tenho que lidar com esta realidade todos os dias da minha vida. Encarar meu egoísmo e só reciclar para acalmar meu ego. Tomar um banho de meia hora e lidar com a culpa, ou a ausência dela, pelos ônus às gerações vindouras. 

O paradoxo que vivo, no entanto, se dá quando vejo estas crianças de perto. Tenho muita curiosidade de ver como dois casais de amigos vão criar seus futuros filhos. Tenho saudades de ver um dos meus grandes amigos com sua prole, e como ele é um pai engraçado. Quero tirar fotos do meu primo com sua filha subindo a árvore perto de casa. E não me canso de ver Matt e Blue com seu pequenino... 

E me pergunto não só que mundo seus pais estão apresentando para elas, como que mundo posso deixar para elas. O impedimento original não me poupou da responsabilidade, parece. 

E nesta hora, não vejo que minha contribuição deva se limitar a reduzir o tempo de um banho para cinco minutos.
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Se há alguma coisa que eu me acostumei a fazer ao longo destes anos, foi compreender cenários Caóticos (e cria-los, ainda que em mundos de fantasia e diversão), ver através deles, mesmo que não reverbere em soluções ou apostas futuristas. 

E aqui, cabe um aparte: sabe, sou um fã de V for Vendetta! Não exatamente o filme, mas a obra primorosa de Alan Moore, a Graphic Novel das Grafic Novels (sim, chamar de quadrinhos seria pejorativo).

O mais complicado para entender o Caos não é estabelecer um origem para ele. Aliás, esta tarefa, ainda que sendo difícil, se mostra inócua. O Caos instalado não se satisfaz com a cessão de suas causas. Ele caminha por si próprio, se retroalimenta. Por isso, não tem nexo buscar seu início. O problema é outro. 

Compreender o Caos tem a ver com entender o seu movimento sem se preocupar com a direção que ele toma. Não é entender para antever, mas acompanhar seus movimentos, ver os desdobramentos, definir novos elementos para compô-lo... 

Por isso, a dificuldade que as pessoas têm para lidar com o Caos e compreende-lo tem a ver com a necessidade de abandonar o controle, furtar-se da vitória e aceitar as consequências. Quem quer fazer isso?
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Para que precisamos dialogar?

Uma das queixas mais comuns de um casamento em crise se dá pelo entendimento de que há uma falta de diálogo, que um ou ambos não ouvem mais... 

O que? Quem?

As perguntas não são despropositadas. Responder a isso não é tão fácil quanto parece.

O diálogo, na verdade, acontece ainda mais intensamente. Conversas, discussões, debates, juízos de valores, acusações... É tanta troca de palavras que chega a ser exaustivo!

O problema, não é a falta de diálogo, mas o propósito dele. Parto da premissa que os diálogos existem para que possamos negociar. No "excesso de diálogo" há uma restrição à voz ao outro, ficamos incapazes de permitir seu discurso. 

Ou seja, impedimos que o outro se manifeste quando passamos a exigir o que nos convém. Tentamos dar realidade aos nossos desejos através do outro, sem termos perguntado se ele está de acordo com isso.

E, ao tirar o espaço de atual do outro, impedimos a nós mesmos de seguirmos em frente. E achamos que isso é Caos. Mas Caos não é obstrução! Caos é movimento. O Caos não pára de produzir.
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Estou revendo o discurso da Dilma no dia da sua vitória, em 2014. Ela, como líder, esperava que o clima da disputa que polarizou o país fosse superado por um sentimento mobilizador, que pudesse construir pontes e uma base de entendimento. 

Ela falou que estava disposta ao diálogo. Que este - o diálogo - era seu compromisso. Dizia acreditar que o debate de ideia e o choque de posições produziria espaço de consensos, confiando em um preceito político que nunca exercitou.

Mas não houve diálogo. Nem dela, nem da sua base, nem da oposição. O que tivemos foi uma cacofonia de interesses pessoais interditados, acusações e dissídios.

Mas estamos em Caos? Ou estamos imobilizados?
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Em V for Vendetta, o diálogo acontecia, não pelas palavras, mas pelas ações de V, que mascaravam suas intenções até o clímax. O diálogo vivido foi minunciosamente conduzido para que V pudesse executar seu plano. 

E ele só conseguiu concretizar suas vontades porque se fez escutar. De diversas maneiras, e com diversos interlocutores. Ele usou o Caos como discurso. Impediu a manutenção do status quo, obrigando todos a um movimento que ele havia definido, ainda que não tivesse controle. Mas era um Caos aparente. Ao menos para ele. 
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O dilema do impeachment hoje é se há base jurídica para ele ou não. Seguir pela lei significa estabelecer crime pela pessoa, Dilma, o que inclui crime de responsabilidade fiscal. 

Ainda hoje um comentarista político levanta a lebre. Quando se decide que o discurso depende desta base, é preciso respeitar suas regras. A base para o pedido ainda não é fato consumado. Mas estabelecer o fato é comprometer legalmente um grande número de governadores estaduais.

E ainda estamos falando das contas do mandato anterior. E ainda seria preciso verificar se ela pode ser condenada por práticas de tal mandato, tendo em vista a reeleição.

Ainda não há verdade estabelecida. Tudo é passível de interpretação.
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Quando afirmamos que o impeachment é uma decisão política não podemos, ao mesmo tempo, tentar garantir a questão pelo discurso legal. Eles não são a mesma coisa.

O discurso legal é aquele que, socialmente, vem regular as interações sociais e, em última instância, a política. Regular, não intervir.

O acordo social/legal vigente no Brasil - leia-se, a Constituição - não prevê a saída de um governo por incompetência ou descontentamento. O recall foi rejeitado recentemente pela oposição

Assim, sendo, o único caminho para antecipar a saída de Dilma seria um novo fato, como obstrução de justiça, ou sua renúncia. Ou assumir um discurso exclusivamente político para o impeachment.

O risco de um eventual protagonismo da política é que, ao torcer as regras legais para justificar seu impeachment tal como está dado, tirar-nos-ia de um cenário de depressão e instabilidade política e econômica previsíveis (ainda que difíceis de serem superados), desta incapacidade de movimento, e nos jogaria em um verdadeiro Caos.

O sentimento não é o de que o país está afundando. É o de que ele está parado, ainda que se veja adiante uma ameaça maior do que o cenário em que estamos vivendo agora. 
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O diálogo numa crise coloca em jogo as vontades das pessoas em meio ao desconforto e à imobilidade. 

Assumir vontades inconfessáveis, seja por desejos sexuais frustrados, pela expectativa social ou familiar, ou mesmo por questões financeiras e de sobrevivência não é fácil.

"Atalhos", contudo, que negam o discurso e tentam manter as vontades estáveis produzem violência, culpa, arrependimento e, em última instância, o Caos.
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 O que está errado, afinal? O discurso, as nossas vontades pessoais, as vontades políticas ou a verdade? Escolha por sua conta e risco.

Até Breve! 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Novos (re)começos

Era uma tradição eu fazer posts de fim de ano quando este blog começou. 

E não deixava de ser esquisito, porque nunca tive o hábito de usar o momento da virada para fazer balanços, contabilizar metas não cumpridas, fazer novas promessas pra mim mesmo ou para os que estivessem próximos a mim. Nada disso.

Pelo que me recordo, eram posts meio poéticos, apenas tentando descrever as experiências daqueles momentos, a sensação de transição, a sensação de renovação, os olhares... até um dos meus últimos reveillons em Copacabana.

Me perdi dos fogos e fiquei observando as pessoas, admiradas pelo espetáculo, enquanto eu não conseguia desfazer a imagem de insetos rodeando a luz, antes de serem queimadas pelas mazelas do tempo que viriam, inevitavelmente, nos 365 dias seguintes, antes que a esperança batesse à porta novamente... 

Cinismo imperdoável, eu sei. E uma dose de hipocrisia. A insônia convida à reflexão, o calor corrói o bom humor. 

Recordo-me com clareza dos dois últimos 31 de dezembro. Agora, são três anos numa mesma "tradição", num movimento parecido, apesar de diferente. 

O que percebo neste é uma clareza muito grande do que está por vir ao meu redor. Ouço as pessoas falando de tempos difíceis, de uma conjuntura de incertezas, de medos. Não é o que eu sinto.

E não, não estou otimista. Não é esta a questão.

O que penso tem a ver com uma percepção da continuidade, de um processo mais amplo que transcende essa temporalidade cíclica obrigatória em que estamos capturados.

Hoje, olho pra minha vida e vejo um processo de paz relativa mais permanente, onde sou apenas convocado a lidar com contingências "naturais", por assim dizer.

Vejo alguns de meus amigos dando passos importantes para suas realizações, enquanto outros estão se (re)descobrindo em seus sonhos e vontades.

E eu? Bem, eu (re)começo este blog. Sem saber aonde vai dar. Do zero, não porque os textos que habitavam este espaço não fossem importantes, mas porque decidi fazer uma ruptura drástica com uma perspectiva política mal localizada.

Mas também porque não me reconhecia mais naqueles textos. Era um eu distante demais de mim mesmo, e retornar àquelas palavras meio que me ancorava em significados que não valia a pena estar preso.

Que venha 2016!

Até breve.